30.6.10

apenas horas, apenas dias

Ouvia o barulho das folhas a desprenderem-se das árvores e a tocarem o chão. Cada uma num ritmo certeiro e delicado. Umas após as outras iam tapando as poucas flores que ainda restavam no jardim, formando um manto avermelhado. O Outono gelado e sombrio fazia-se sentir.
E eu, sentada na cadeira a olhar pela janela, com uma expressão apática, senti-me impotente perante o mundo. Senti que não havia mais nada que eu pudesse fazer. Não havia mais nada que motivasse a minha ligação com o mundo. Mais nada fazia sentido, mais nada me podia ligar à vida. Nada mais podia dar sentido à minha vida. Os ponteiros do relógio iam mostrando as horas que iam passando lá fora. Para mim o tempo tinha-se tornado insignificante. Eram apenas mais horas e dias que me envelheciam e que nada me ensinavam.
Já tinham passado 3 meses. 3 meses em que nada servia de consolo para mim. Nada conseguia reconfortar aquela dor que eu sentia. Uma dor tão profunda, tão devastadora. Uma dor como eu nunca havia sentido antes. O desespero, as lágrimas, a solidão, a saudade e por fim a dor.
O meu mundo parara naquele dia, naquela hora. Desde então deixaram de existir sentimentos de felicidade, de alegria em mim. Até o simples acto de sorrir (que não é assim tão simples) deixou de existir em mim.
O meu rosto estava carregado. Tinha um olhar triste. As olheiras de quem já não tinha sequer vontade de dormir. A pele pálida e sensível. E uns lábios arroxeados do frio. Um frio que não era só físico, este era um frio que tocava a alma.
Naquele momento, sentada na cadeira a olhar pela janela, senti o meu corpo a deslizar e, por fim, a tocar o chão de madeira do meu quarto.

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